19. Poetas e suas ruas; Zé do Caixão; bombas no Brás; ideias más; podcasts; e um último poema

O Zé do Caixão é mais isca, viu

Há uma crônica do Nelson Rodrigues em que ele diz que, no Rio de antigamente, as pessoas se tratavam por poeta. “Bom dia, meu poeta!”, lascava um; “Como vai essa força, poeta?”, devolvia outro; “Dez tostões no galo, poeta!”, ordenava um terceiro, e assim ia o país ou a cidade, com mais Virgílios do que Eneidas, com mais risos do que rimas, mas, ainda assim, cheia de simpatia. Faz pensar num tempo e numa terra melhores.

Tanto amor pela Musa, pensei eu, deve ter se refletido nos logradouros. Que poetas batizaram ruas, praças, avenidas em São Paulo? (Nelson falava do Rio, mas eu moro em São Paulo: é aqui o túmulo do samba, e, se vacilar, o da pintura, o do teatro, até o das sinfonias. Mas por que seria o dos poetas? Dando de barato que uma placa de rua não seja uma lápide.)

Não vamos muito mal. Há uma Avenida Manuel Bandeira na Vila Leopoldina, que é bairro tido como OK. Menos sorte tiveram Carlos Drummond de Andrade, cuja rua fica na Vila União, e João Cabral de Mello Neto, que batizou via na Cohab Santa Etelvina, pertinho da Cidade Tiradentes. A Rua Cecília Meireles está no Jardim Japão: não tão mau, não tão bom. A Rua Murilo Mendes está perto da USP, o que é melhor para a Universidade do que para a memória dele, mas vá. A Rua Castro Alves está na Liberdade, o que está bem. A Avenida Guilherme de Almeida é perto da Brasilândia, o que está mal. Basílio da Gama tem rua no centro, Vinícius de Moraes virou praça no Morumbi (diplomata é isso aí). A Rua Mário Quintana é perto do Simba Safári.

Álvares de Azevedo, Jorge de Lima e Cora Coralina não foram distinguidos na Capital, mas sim em Osasco, o que soa a desfeita. Osasco também abriga a Rua Patativa do Assaré. Hilda Hilst é travessa em Santo André. Raul Bopp? Só em Campinas. Paulo Leminski? Jacareí (e já é muito). E Maria da Saüdade Cortesão, poetisa que me é querida ao coração, não tem rua, praça, avenida, viela, travessa em canto nenhum do país. O amigo aquilate o tamanho da injustiça pelos versos que vou pôr aqui embaixo:

PRIMAVERA

A musa que passou

não era a que sabias.

Vinha em lua minguante

a espaços vestida

por espelhos azuis

e narcisos de frio.

Que remanso tão meigo

em seus peitos havia!

Que miosótis e leite

em suas veias tíbias,

três tangentes tocavam

o seu coração dúbio.

Não lhe soubeste o corpo –

terra da madrugada

que se dava ferida,

nem os seus cursos de água.

Olhavas tão ao longe,

enquanto o amor te olhava.

É de um livrinho raro e lindo chamado “O dançado destino”. Maria merecia no mínimo uma pracinha (para mim, um parque inteiro).

Também não há rua, praça, viela, travessa, passarela Bruno Tolentino, Alberto da Cunha Melo e Marly de Oliveira. Mas isso não nos surpreende.

E o Brás tem uma Rua Casimiro (ou Casemiro) de Abreu.

* * *

Casimiro (ou Casemiro) de Abreu escreveu o poema, hoje esquecido, mas que já foi muito popular, chamado Meus oito anos. Seus versos iniciais não devem ser estranhos ao amigo, supondo que o amigo, como eu, ande na casa dos cinquenta:

Oh! que saudades que tenho

da aurora da minha vida,

da minha infância querida

que os anos não trazem mais!

Ele morreu, como morriam os poetas do XIX, com vinte e um anos e tuberculoso – o ocaso muito mais próximo da aurora do que no nosso (meu e seu, amigo) caso. Mas olhe que tempos: neles se envelhecia tão depressa que um ancião de vinte e um já lamentava a perda dos verdes anos. E usava exclamações. E dizia a obviedade de que os anos, como o governo, as ex-mulheres e os ladrões, nunca devolvem nada.

Donde se pode tirar que a saudade é doença, e que a saudade é mania. E a Maria punha na sua Saüdade uma marca de hiato. Hum.

* * *

Mas a Rua Casimiro de Abreu. Em julho de 1924, São Paulo foi bombardeada na chamada Revolta Paulista ou segundo levante dos tenentes – bombardeios que foram chamados, creio que com inteira justiça, de terrificantes. O Brás foi muito atingido, idem a Moóca e o Belenzinho. Os meus Tosetto (havia outros, meus mas menos meus; nunca houve míngua de Tosettos na terra), que à época, creio eu, eram em número de sete, moravam numa vila que havia nessa rua, à altura do número 300, lugar onde hoje, parece, existe um estacionamento. A casa tinha porão, e terá sido o porão, ou a sorte, ou os dois, quem salvou os sete de morrer debaixo das bombas. Havia no bairro um padeiro italiano, de nome Picca (oh, you may laugh), que fazia caderneta e entregava o pão em casa, correndo decerto risco de vida. Era um herói da infância do meu pai, que tinha, na altura, cinco anos de idade. E comeu (oh, you may laugh) muito pão do Picca.

Nessa rua, à altura do 396, havia uma sinagoga abandonada. Não digo que já estivesse abandonada em 1924, mas, por volta de 1966, estava. Por essa época, lá o Zé do Caixão fez seu estúdio. Meu pai trabalhava no 424, na fábrica de bolsas de um dos irmãos dele. No 390 (ou perto disto) havia um cortiço no qual, em dois cômodos e com cozinha e banheiro fora, moravam duas tias italianas: Vitória e Virgínia. A partir de 1971 nós morávamos na paralela, Maria Marcolina, 656, apartamento 3, e do nosso quintal víamos a sinagoga, já sem Zé do Caixão.

Que me lembre, tia Vitória foi a primeira Tosetto que vi morrer. Terá sido em 75 ou 76. Depois foi minha avó (77), e daí, em avalanche, minha tia Guiomar (81), meu pai (83), meu primo Valdir, meu tio Valdemar e minha tia Nenê (84). Em três anos, minha vida virou de ponta-cabeça, e eu tive que começar a aprender a ser outra pessoa.

Antes disso, vi em algum sábado naquele quintalzinho a sinagoga e o céu das tardes do final de maio, frio, silencioso e cheio de vento – epifania pequenina que volta e meia me retorna em algum sonho.

* * *

Uma vez, atendendo uma encomenda de um editor irresponsável – isto foi no final dos anos 80 – que queria personagens para um gibi de terror, inventei um super-herói zumbi. Se chamava Rigor Mortis. A idéia era a seguinte: um nazista metido com bruxaria (é dizer, um nazista comum) vai a um cemitério e faz um ritual para levantar os mortos e criar um exército zumbi. Dá certo: centenas se erguem e o seguem. Rigor Mortis é um dos que voltam à vida, mas, enterrado muito fundo, não sai da terra a tempo de se juntar aos demais, e fica por aí, e de ficar por aí vira super-herói. Bolei isso, mas continuei pensando e fui desanimando: o cara é incapaz de falar, porque não tem mais goela; de pensar direito (ou até torto), porque não tem mais cérebro; de enxergar, porque não tem mais olhos; de ouvir, porque não tem mais ouvidos; e até de se mexer, porque não tem mais músculos nem tendões ou pulmões, e nem sangue ou veias. Ele não presta para nada, ele nem sequer conseguiria sair de dentro da terra – e como, pois, pode ser herói? E quem lhe aguentaria o fedor?

Depois inventei uma espécie de mulher-robô cujo motor, se é que o termo cabe, era um duende. Ele ficava preso dentro dela: era uma maldição, um castigo e uma tortura. Pelo quê? Não sei. Todo espetado por arame farpado, sem dormir, tendo espasmos de dor, movimentava uma mulher de ferro por aí. Era mais ou menos como um transformer tripulado pelo Antonin Artaud. Com que propósito? Pffffff. Desisti.

Pensar demais mata a fantasia? Bom, é assim que se arquivam ideias. Graças a Deus, senão a argumentos tão porcos, a encomenda também não foi adiante.

* * *

Dois podcasts excelentes: um, de que falo aqui pela primeira vez, é o Fitas, Bolachas e Catataus, cujo canal, da produtora Panela, é este (assine, isso ajuda os meninos a beber cachaça ou, sei lá, Biotônico Fontoura por meios dignos): https://www.youtube.com/channel/UCApiphic6gxe9BWvwC3YMgQ.

O outro, do qual já falei, é o do Exílio de Saturno. Este é o link do último, do qual participa o Alexandre Soares Silva, e é muito bom: https://anchor.fm/exiliodesaturno/episodes/Episdio-06---Alexandre-Soares-Silva-e18a929.

Em algum ponto deste último podcast alguém diz que estamos todos perdendo, neste mundo de newsletters e tal, a oportunidade de fazer ficção; que estamos trocando essa chance por outras coisas. Tem toda a razão, independentemente das outras coisas também serem legais (são sim, vai). De sorte que eu anuncio, com antecipação temerária, o seguinte: vou folhetinar nesta news o primeiro conto que eu terminar dos muitos que rumino simultaneamente.

Não prenda a respiração, amigo: não tem data para acontecer. Mas vou me esforçar para que aconteça.

* * *

Para final de conversa, admita o amigo: começar um texto com “para começo de conversa” é clichê.

Mas agora estamos dando adeus, ou até mais, então... Adeus. Ou até mais. Até semana que vem, digamos.

* * *

Não, espera, fica mais um pouquinho. Eu disse que não existe rua nem viela batizada em honra de Alberto da Cunha Melo. Para que você não vá dormir sem saber a sacanagem que é isto, fique aqui (fique, você agüenta; e agora sim, é despedida) com um poema dele, que está na página 34 de Dois caminhos e uma oração:

COMPULSÃO

Se jamais gostou de escrever,

já não sabe por que escrevia,

ou continuava a escrever

esta coisa sem serventia,

este verso antigo e simplório

feito rubrica de cartório;

mas, ah!, ele aprendeu agora

que foi seu jeito de acenar

quando a alegria foi embora,

de chamá-la, depois de ida,

como quem chama a própria vida.