20. Com a pena da galhofa e tinta de não sei o que lá

Tem horas que as juntas doem.

Perdi a tarde do dia das crianças de modo muito paulistano: almoçando num shopping center. Má idéia, dirá o amigo; péssima idéia dirá se, para cúmulo, for paulistano também. Concordo. Tenho umas idéias meio burras às vezes.

O lugar, evidentemente, fervia de pais, mães e filhos. E filhas, claro. Até filhes, se existirem filhes. Uma hora, afinal, acabarão fazendo com que existam, é ou não é? Cheio deles, delas e de diversões para eles. Todas as diversões com filas compridas. Olhei para essas filas como quem olha, sei lá, o Maelström.

E senti um mal-estar que sempre sinto quando vejo molecada assim, aos magotes: o mal-estar de ver crianças que brincam, como direi?, profissionalmente.

Não sei se me explico. Imagine, amigo, o pedreiro que chega ao canteiro e, à vista de um monte de areia, estrala os dedos e começa logo a peneirá-la. Ou o padeiro que, entrando na cozinha e vendo a farinha, estrala os dedos e já a espalha em monte sobre a bancada. Pois bem: há crianças que, vendo (digamos) a piscina de bolinhas, estralam os dedos e se jogam nela com a mesma presteza, e até com a mesma competência, do pedreiro e do padeiro. Crianças que brincam parecendo trabalhar.

Eu devia ser uma criança muito chata, muito amadora. Não me lembro de me atirar aos brinquedos com esse ar, para mim horroroso, de quem estrala os dedos e diz “vamos lá”.

É claro: pode ser que eu esteja entendendo tudo errado e vendo o que não existe. Pode ser. Tomara. Faz tanto tempo que não sou mais criança.

* * *

Gosto de Bertie Wooster porque compartilho com ele duas coisas: a burrice e duas tias que tiveram mão enorme na minha criação. (Ter um mordomo me ajudaria muito com 95% das besteiras que fiz na vida, mas a minha extração é das que geram mordomos, não seus patrões. Paciência.)

Eram duas as minhas tias, Ermínia, vulgo Nenê (ninguém sabia de onde saiu esse apelido, profunda, mas, olha, profundamente inadequado), e Guiomar, pela ordem a mais velha e a mais nova, as duas entretanto mais velhas que meu pai, e as duas solteironas. A primeira nascida em 1913; a segunda, creio, em 1917. Quando eu nasci, em 1967, as duas já eram cinquentonas, e podiam ser minhas avós; mas eram tias, e suas idéias de como criar meninos estavam presas à década de 40. Não vou falar das vantagens (houve, houve) e das desvantagens disso. Falo antes de como a Guiomar morreu, em 81.

Melhor começar dizendo que tia Guiomar era uma mulher bruta. Na verdade todos eles, os italianos da minha família, eram gente bruta. Herdei um tanto dessa brutalidade, como sabem os azarados meus consortes.

O nome dela era Igomar, que parece nome de homem. Ninguém nem o pronunciava; virou Guiomar. Talvez fosse Guiomar desde o começo, e algum escrivão bêbado ou de ouvidos duros ao sotaque do avô o registrou erradamente. Isso acontecia, como mostra a grafia variada do meu sobrenome.

(Por exemplo, há gente até hoje que pronuncia Tosetto como Toto, esquecida de que s entre vogais, no tuga e no carcamano, soa como z. Assim, mais de um escrivão registrou tios e tias, foneticamente, como ToZetto. Ou Tozeto, não vamos agora gastar os tt à toa. Um mais vinhateiro, porém, inventou um Dosetto para tia Nenê. E outro, francamente mamado, registrou minha prima Jovelina, mulher, como Jovelino, homem, e aos 18 a pobre se viu enrolada com a junta militar.)

Doravante, amigo, não diga que não sou velho: tive uma prima chamada Jovelina. Certo que não era exatamente uma pérola, e, a falar verdade, nem rubi de relojoeiro. Mas olhe o nome: Jovelina. Me doe córneas, amigo. Ou cabelo: melhor doar cabelo. Dinheiro também não ofende.

Enfim, tia Guiomar amava-nos, a mim e a meu irmão, como os filhos que nunca teve. Era, na minha infância, a mulher mais bonita que eu já tinha visto, com a boca grande e um dente amarelado em cima, na frente, talvez um pivô, que me fascinava como uma pedra que brilhasse no fundo de um rio. Hoje paro pra pensar e a lista das coisas de que me lembro dela é curta: era funcionária pública, vestia-se bem, tinha amigas de nomes italianados como Iole e Trieste, e pintava os cabelos de acaju. Dançava tango com meu pai: trançavam as pernas, cantarolavam juntos Madresielvas, ou Por una cabeza . Ela se dobrava com muita graça e ria um riso raro e alto, com uma nota aguda, coquette (sim, coqueta y risueña mujer), que deixou no meu subconsciente (afloraria depois) um mundo sobre as mulheres. Por causa daquele riso, por exemplo, eu sei que, mesmo morrendo solteirona, amou. Quem, quando, não sei; os mais velhos sabiam e calavam.

Ela e tia Ermínia costuravam, para si, para amigas e para poucos mais. Tinham mesas grandes, gizes achatados e encerados, revistas de moda dos anos 60, quando viveram seu pequeno auge e foram à Europa. Vi-a várias vezes de fita métrica pendurada ao pescoço, com alfinetes de cabeça vermelha presos na boca, óculos sobre os olhos frios (nessas horas, parecia uma dentista: tinha olhos castanhos e duros, nunca ressacados – eram olhos de fiscal), trabalhando compenetrada numa blusa para mim no velho casarão do Brás – o casarão onde havia um telefone preto de fios encapados em pano, as portas da sala eram de vaivém, e o sofá imenso era forrado com chita. Aos sábados, fazia pizza, de massa fina e crocante que era a bronca de meu pai (“pizza que presta tem que ter a massa macia e grossa”), que em todo caso comia e bastante.

Uma vez, eu moleque de dez anos, me levou a Santos. Ficamos lá alguns dias no apartamento de um tio. Lembro de uma tarde sem energia elétrica, seu perfil romano recortado contra aquele poente que só nos ocorre mesmo quando pensamos em praia. Bebíamos café com leite, comíamos pão com presunto, eu tinha uma sensação (essas coisas da infância nunca param de voltar) de que podia continuar vivendo daquele jeito por muito tempo adiante.

Morreu de câncer ósseo, agonizou por dois anos, tinha dores horrorosas, e nunca ninguém a ouviu gritar. Mas muito a ouvi gemer. Uma vez eu não a quis ver, entrevada que estava; ouvi a respiração pesada pela dor e ia saindo de fininho, tentando descer as escadas em silêncio, mas ela ouviu meus passos na escada e disse de dentro do quarto:

Giugnetto, você não vem ver a tia?

Fiz o que sempre fazia quando estava envergonhado: menti.

– Achei que a senhora estava dormindo.

(Não tenho como transmitir, amigo, e que sorte a sua, a vergonha que ainda faz meu rosto arder mesmo enquanto escrevo isto. E espero que você perceba, como tardiamente percebi, o quanto precisamos de perdão. E, pois, de Deus. )

Entrei no quarto e beijei seu rosto murcho e manchado, a pele que se ia amarelando. Eu ainda não estava habituado à morte, mas a via: via a vida que ia indo, indo, indo embora, e via que era com dor que essa vida se descolava do corpo dela, como um esparadrapo agarrado a um furúnculo. O teto do quarto era alto, ela ficava à meia-luz, e eu fiquei ali, transido. Eu quis muito, muito, fugir, mas entendi que, se entrasse um leão ali, naquela hora, eu não ia poder sair, eu teria que morrer.

Enterramos uma mulher muito menor, muito mais leve, no calor pegajoso de março.

Eu disse que ela foi à Europa nos anos 60. Me trouxe de lá um ônibus de dois andares, vermelho, de janelinhas amarelas, da Matchbox, creio. Lindo. Onde foi parar? Não sei; foi com a infância para onde quer que a infância vá – o lugar para onde a infância foge sozinha e te deixa lá, sabendo que um dia o leão vem.

A vida adulta, amigo, é saber que há um leão por aí.

* * *

Minha filha me disse uma vez:

– Pai, você é a única pessoa que eu conheço que nunca ficou internado.

Eu respondi:

– Aproveite, então, porque, quando eu cair, vai ser de vez.

Não foi uma bravata, nem uma piada: respondi isso acreditando que vai ser assim mesmo. Mas, pensando depois um pouquinho nessa resposta, me censurei: rapaz, como você sabe quem tibi finem Deus dederit, ô palhaço presunçoso? Como você sabe o que vem por aí, e se vai ou não vai aguentar? Que mente leve é essa? Vamos ver na hora agá.

É, pode ser que eu seja muito criança ainda, afinal.

* * *

Eu descobri que dá para pôr musiquinhas aqui. Então, amigo, te deixo com uma que te mostre o quanto eu aprecio a sua companhia, a sua atenção, e para lavar da sua boca aí qualquer gostinho de melancolia que eu, por acidente, possa ter deixado.

Até semana que vem.

Henrique VIII